Doug Moench criou o Cavaleiro da Lua como um coadjuvante para a revista Werewolf by Night.
Na história, Marc Spector era um mercenário que recebe da SHIELD um uniforme com alguns apetrechos e a missão de trancafiar o Lobisomem - o que ele de fato o faz.
O personagem fez tamanho sucesso que a editora pediu ao roteirista uma série com o heroi.
Daí veio a história do mercenário de bom coração que só está interessado em grana e se rebela contra o sócio, que mata um arqueólogo - afinal eles estão no Egito - e quer dar cabo da filha deste também.
Quando Marc intervém, toma chumbo da mesma maneira - e só não morre porque uma tal divindade egípcia chamada Konshu o salva, não sem antes fazer um belo pacto com o mesmo.
Na ocasião, ficava subentendido que Marc apenas delirava e fora salvo pela filha do arqueólogo.
Depois, escancarou-se que fora Konshu mesmo que o havia salvado.
Marc decidiu mudar de vida, abandonou a mercenaria para trás e vivia uma vida quádrupla, ora era ele mesmo, Marc Spector, ora era o produtor de cinema e bilionário, Steven Grant, ora era um motorista de taxi, Jake Lockey - quando queria prospectar informações do submundo do crime; e, claro, ora entrava em ação como o Cavaleiro da Lua.
Com o passar do tempo e mudança de autores, Cavaleiro da Lua foi mudando e seus "disfarces" acabaram se tornando personalidades fragmentadas, com o personagem chegando ao cúmulo de atuar como se fosse Capitão América, Homem-Aranha, Demolidor e Wolverine. Ele realmente estava no fundo do poço e precisou ser resgatado pelos herois que copiara.
A série, de seis episódios, disponibilizada pela Disney+ apaga quase tudo o que o personagem foi no passado. E subverte a ideia.
Nós somos apresentados a Steven Grant, um funcionário, supostamente inglês, dado o seu sotaque, de um Museu, cuja assiduidade não é levada muito a sério.
Ele acorda todos os dias com uma espécie de tornozeleira que o impede de sair do quarto - e ele nunca se lembra de ter-se amarrado.
Steven é um boa-praça, mas desrespeitado por todos os colegas, menos uma, que parece gostar dele - eles inclusive marcam um jantar para comerem um bife, embora Steven seja vegano; e graças a certos lapsos, ele acorda, vai até ao restaurante--- três dias depois.
Tais lapsos fazem Steven aparecer noutros cantos da cidade, ou do mundo. Dirigindo uma van com uma pistola na mão; ou em lugares que jamais imaginou conhecer.
E as coisas ficam mais malucas quando um monstro com cabeça de pássaro sem pele aparece conversando com ele.
E ficam piores quando ele se depara com uma espécie de líder de culto que acredita que sua bengala pode julgar se a pessoa é boa ou não - se sim, sai viva; senão, a morte é certa.
E para piorar mais ainda, Steven está com um escaravelho de ouro que pode ser também uma bússola para a tumba da deusa egípcia Ammit.
Que esse líder de culto quer ressuscitar.
Interpretado por Ethan Hawke, o líder se chama Arthur Harrow e alega ter sido um antigo avatar de Konshu.
Algum poder sobrenatural ele tem, porque consegue liberar criaturas fantásticas para seus intentos; uma dessas persegue Steven por todo o Museu até que ele vai parar num banheiro e, enfim, se conecta com a contraparte, Marc, e depois o Cavaleiro da Lua.
Logo, Steven percebe que não vive sozinho naquele corpo e precisa de respostas; algumas vêm com Layla, supostamente ex-esposa de Marc, conhecedora de história egípcia, ela mesma natural daquele país.
As coisas vão se complicando cada vez mais para o [ex?] casal com Harrow em seu encalço e Konshu não ajudando muito.
Ao final das contas, uma nova super-heroína surge - na verdade, uma reformulação de um antigo vilão dos Invasores, o Escaravelho Escarlate, e a necessidade de poder e justiça de Harrow e a deusa Ammit precisarão ser detidos.
Com o término da série - ou primeira temporada, nem mesmo a Marvel sabe - o que fica explícito é a capacidade interpretativa de Oscar Isaac e as diferenças de personalidades que quase o fazem parecer duas pessoas totalmente diferentes.
Isaac conseguiu construir um Steven Grant tão simpático e amável que é difícil não torcer por ele, assim como um Marc Spector amargurado e decidido. Segundo o diretor, Mohamed Diab, foi ideia do próprio astro da série a mudança de sotaques para melhor separar as personalidades.
Mas há outras coisas, como o pentear dos cabelos, a forma de olhar as pessoas, as expressões.
E há também situações meia-bomba, como o Cavalheiro da Lua - a contraparte de terno - que lembra um Deadpool de segunda linha.
O próprio vilão de Ethan Hawke poderia ser melhor orquestrado e talvez solto a uma loucura um pouco mais modulada; ele parece um aposentado às vezes.
É inegável que Cavaleiro da Lua não é uma série tradicional da Marvel, com herois que resolvem a parada e ponto final, tal como Demolidor ou Justiceiro; não! Cavaleiro da Lua é a história de Steven Grant, um cara que vive num corpo com outros hóspedes. E um desses hóspedes é justamente um ser superpoderoso.
A fotografia é muito bonita e, meio que de uma forma diferente, a origem do personagem, criada por Moench está na série.
E pensar que Cavaleiro da Lua quase ganhou uma série no embalo da Netflix - falo sobre isso no video abaixo - e, claro, seria totalmente diferente; no entanto, é interessante pensar no personagem ao lado de Demolidor, Justiceiro e Jessica Jones, por exemplo.
E quanto a uma segunda temporada? Há fôlego para isso? Há! Só não sabemos se acontecerá, porque será preciso convencer Issac a voltar; o diretor gostaria de levar o personagem aos cinemas; e a atriz May Calamawy, intérprete de Layla, gostaria de ver mais da Escaravelho Escarlate.
Quem sabe, participando dos Vingadores? É uma possibilidade.
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